terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Sonho e vigília



Na verdade, quando se trata de falar sobre o real, não há diferença entre o sono e a vigília, mas convém que não distorçamos os fatos que identificam que nossas experiências oníricas são falsas ou que apenas as experiências de vida que são experiências de vigília sejam reais. Parece que, atualmente, decidiu-se negar o valor do sonho nas sociedades tradicionais (só porque os nossos sonhos não são mais significativos do que o nosso desconforto psíquico).

[extraído de El secreto de Muhammad: la experíencia chamánica del Profeta del Islam, de Abdelmumin Aya, p.66 - tradução de Muhammad F.]

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Deixando o mundo para trás


Buda fundou seu Caminho no fato humano do sofrimento. O Islã retorna à situação básica na qual nos encontramos uma interpretação levemente diferente: o homem, em seu estado ordinário de consciência, está literalmente adormecido ("e quando morrerem, despertarão", como Muhammad disse). Ele vive em um sonho, seja de prazer ou de sofrimento - algo fenomenal, de existência ilusória. Apenas o baixo si-mesmo está desperto, sua "alma carnal". Sentindo-se bem ou não, ele é um miserável. Entretanto, potencialmente essa situação poderá ser modificada, pois o homem fundamental / primordial [ultimately man] não é idêntico com o baixo si-mesmo. (O Príncipe de Balkh, Ibrahim Adham, perdido no deserto enquanto caçava, perseguiu um veado encantado que virou-se para ele e perguntou "Onde você nasceu para isso?") A experiência autêntica humana está no divino; ele tem um si-mesmo elevado, o qual é verdadeiro; ele pode atingir a felicidade, mesmo antes da morte ("morra antes de morrer", disse o Profeta). O chamado é feito: para voar, migrar, uma jornada para além dos limites do mundo e do si-mesmo.

[tradução de trechos de Introduction to Sufi Path, de Peter Lamborn Wilson, a.k.a. Hakim Bey, extraído de http://hermetic.com/bey/intro-sufi.html - tradução de Muhammad F.]

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Crash - no limite

Para M.C.

O que dizer de um filme como Crash - no limite? Não é um filme que você gosta. Não é um filme que alguém deva gostar. Pelo contrário, deve detestar as situações de preconceito e de discriminação, as misérias humanas que são mostradas e seus protagonistas. Não sou crítico de cinema, mas realizarei algumas indicações...

As atuações são excelentes. Todos os personagens conseguem transmitir a vertigem de sua condição humana, recheadas de contradições e semelhanças com exemplos cotidianos, exemplos que encontramos em nós mesmos também. Me lembro, por exemplo, da primeira vez que entrei em uma mesquita xiita e de todo preconceito que eu tinha. Lembrei da primeira vez que fui a uma festa onde maioria das pessoas eram negras e do "natural" sentimento de deslocamento que tive. Lembro de muitas misérias minhas que trabalhei e que pude superar somente com as esmolas e contribuições morais que recebi, para o bem e para o mal, de meus irmãos na humanidade.

A direção é excelente. Todas as cenas são muito bem focalizadas, os jogos de luz e sombras; as cenas diurnas me pareceram ter uma finalidade de esclarecimento, enquanto as noturnas puderam indicar os sentimentos íntimos / internos dos personagens.

Se estou elogiando os elementos do filme, por que não gostar dele? Por que ele não é uma filme para apreciar. É um filme para aprender, para aprender uma dura lição: a de que somos, no limite, miseráveis, que nos esbarramos e nos machucamos em nosso cotidiano e em nossas vidas, que podemos realmente destruir a vida de uma pessoa com um simples gesto ou ação, ou mesmo retirar a esperança de um coração por não termos a (sagrada) compreensão de nosso papel na vida de nossos irmãos. Quando perdemos a perspectiva humana - ou seja, universal -, corremos o risco de repetir os erros dos protagonistas desse filme.

... gostar de Crash - no limite é como gostar de "Um homem é um homem" de Bertolt Brecht, é como gostar da miséria humana. Certamente, nenhuma miséria humana é digna de apreço; as lições que elas trazem sim. Desse modo, sou extremamente feliz por ter tido a oportunidade de aprender muito vendo esse filme. Como obra de arte? Excelente filme. Como lição? Excelente também. Como representação da escuridão de nossa alma? Medonhamente exato.

Durante o filme, chorei; principalmente após a primeira meia hora, quando percebi o quanto estive um dia embrenhado no preconceito e nas trevas da ignorância. Não que não esteja mais, o que me deixou triste, mas o quanto ainda tenho que combater por mim e pelos outros. Essa jihad é essencial... Já disse o Profeta Muhammad, que a paz e as bençãos de Allah estejam sobre ele, no Sermão da Despedida que Um árabe não é superior a um não-árabe, nem um não-árabe tem qualquer superioridade sobre um árabe; o branco não tem superioridade sobre o negro, nem o negro é superior ao branco; ninguém é superior, exceto pela piedade e boas ações.  Aprendam que todo muçulmano é irmão de todo muçulmano e que os muçulmanos constituem uma irmandade. Nada que pertença a um muçulmano é legítimo para outro muçulmano a menos que seja dado de livre e espontânea vontade. Portanto, não cometam injustiças contra vocês mesmos. (extraído de http://www.islamismo.org/ultimo_sermao.htm)


Como costumamos dizer muitas vezes ao dia: Allah, guia-nos à senda reta. Tal filme perpassa pelas lições dessa senda.

Ainda vivemos na Era Neolítica


Estamos basicamente vivendo no período agrícola-industrial e ainda praticamos o sacrifício. Se não acredita nisso, venha para o estado de Nova Iorque, onde acabaram de reinstituir a pena de morte - um sacrifício simbólico. Em algum momento, a beligerância primitiva transformou-se na beligerância clássica e aqui está algo interessante sobre a rede [net]. A rede nasceu muito mais como uma estrutura de beligerância primitiva do que uma estrutura clássica, por conta dessa estranha necessidade gnóstica para evitar a desintegração atômica. A rede tornou-se em um espaço no qual o poder é disperso ao invés de centralizado. Pensam que essa é uma estratégia brilhante. Descobriu-se que, assim, perdeu-se o controle da rede quase instantaneamente. Eles deveriam perceber que que um sistema não-centralizado não poderia ser mantido sob controle de fora desse sistema. Se você toma um sistema fechado e o descentraliza, então não haverá modo de recentraliza-lo. Essa recentralização do poder provirá de fora desse sistema.

(...) Todas as pessoas que conheci nos anos 60 e 70 que eram aficcionados por telefone migraram para a rede. O telefone é tão fora de moda, como água corrente quente e fria. Ninguém mais pensa sobre o telefone, não há sentido [mumbo jumbo] no telefone. Não há mais magia no telefone. A magia está toda na rede, de modo que todos anseiam por controlá-la.

[tradução de trechos do texto Islam and the internet: net-religion, a war in heaven, de Peter Lamborn Wilson, a.k.a. Hakim Bey, extraído de http://hermetic.com/bey/pw-islam.html - tradução de Muhammad F.]

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Antes que julgue os outros...


Antes que julgue os outros ou clame conhecimento de alguma verdade absoluta, considere que você enxerga menos de 1% do espectro eletromagnético e ouve menos de 1% do espectro acústico. Enquanto lê isso, você está viajando a 220 km por segundo através da galáxia. 90% das células do seu corpo possuem seu próprio DNA microbial e não são "você". Os átomos no seu corpo são 99,9999999999999999% de espaço vazio e nenhum deles são os mesmo desde seu nascimento, sendo originados no interior de estrelas. Seres humanos possuem 46 cromossomos, 2 a menos que uma batata. A existência do arco-íris depende dos fotorreceptores cônicos de seus olhos; para animais sem cones, o arco-íris não existe. Assim, você não enxerga um arco-íris, você o cria. Isso é assustador, especialmente se considerarmos que todas as belas cores que vê representam menos de 1% do espectro eletromagnético.
(tradução de http://9gag.com/gag/azbGAEN - por Muhammad F.)