sexta-feira, 31 de maio de 2013

O rio da unicidade


O rio da unicidade revelou-se,
saciando desertos e terras abandonadas.
Se não nutrir seu coração com o amor de Deus,
Estará seco e sedento como aqueles desertos.

[atribuído ao Sheikh Sultan Bahu (1628-1691 E.C.), extraído de http://wahiduddin.net/sufi/sufi_poetry.htm#Uftade - tradução de Muhammad F.]

Gilbert Durand em seu indispensável O imagináio: ensaio acerca das ciências e da filosofia da imagem já utilizava da metáfora potamológica, argumentando em termos de bacias semânticas do imaginário, relatando os movimentos de mudança dos regimes imagéticos e apontando no sentido da confluência das imagens. Aparentemente, o caso é o mesmo com a questão do amor de Deus: ele une os sujeitos em um rio, independentemente de sua afluência. 

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Ditos esclarecedores da relação entre Muhammad e Jesus

Miniatura Persa de Jesus durante o Sermão da Montanha - extraído de http://www.eslam.de/begriffe/m/messias.htm

Nos primeiros ditos narrados nos capítulos de Muslim sobre os méritos de Jesus Cristo, Muhammad declara-se como o mais próximo e aparentado a Jesus entre toda a humanidade, tanto nesta vida quanto na próxima: "Profetas são irmãos na fé, tendo diferentes mães. A religião, entretanto, é uma só e não há Apóstolo entre nós (entre eu e Jesus Cristo)."

Elocuções paralelas podem ser encontradas em Bukhari  (Kitab al-abiya'), que acrescenta que para aquele que acredita em Jesus e então acredita em Muhammad, haverá uma recompensa dobrada.

De acordo com a lenda muçulmana, o Profeta instruiu seus Companheiros para guardarem um túmulo para Jesus, próximo a Muhammad, entre Abu Bakr e 'Umar, onde ele deveria ser enterrado juntamente com Muhammad, após sua volta à terra, e ressuscitaria com ele de uma sepultura na Ressurreição. Apesar deste dito estar de acordo com a ênfase da Suna na proximidade (espiritual) de Jesus e Muhammad, não está inclusa nas coleções de Bukhari e Muslim. Em fontes recentes, entretanto, ela aparece frequentemente. Que Jesus será enterrado pelos muçulmanos refere-se ao comentário do Qur'an por al-Tabari (morto em 923), que afirma que Jesus, em sua segunda vinda, "permaneceria na Terra tanto o quanto Deus quisesse - talvez por 40 anos. Então ele morreria e os muçulmanos rezariam sobre ele e o enterrariam". 

Tradições pertinentes à morte e sepultamento de Jesus após sua segunda vinda estão inclusas na popular coleção de Hadith Miskat al-Masabih, que foi iniciado no século XI por al-Baghawi e revisado no século XIV por al-Tibrizi. Com referências a Thirmidi, ele relata que "a descrição de Muhammad está escrita no Torah e também que Jesus, filho de Maria, será enterrado junto com ele. Abu Mawdud disse que um lugar para o túmulo restou na casa." 

Ele também inclui a seguinte fala, que é atribuída a Ibn al-Jauzi com referências ao Kitab al-wafa:
Jesus, filho de Maria, descerá para a terra, casará, terá filhos e permanecerá por quarenta anos, tempos após o qual ele morrerá e será enterrado juntamente comigo, em meu túmulo. Então Jesus, filho de Maria, e eu levantaremos da mesma sepultura entre Abu Bakr e 'Umar.
De acordo com o relato de Muhammad de sua viagem noturna e ascensão aos céus, Muhammad encontra Jesus no segundo ou terceiro céu, sendo exaltado, acima de Jesus, para o sétimo céu (cf. Muslim, Kitab al-iman e Bukhari, Kitab al-anbiya, assim como o seu Kitab bida' al halq e Kitab manaqib al-ansar).

[extraído de ODDBJøR, Leirvik. Images of Jesus Christ in Islam. Nova Iorque: Continuum, 2010. p.37-38. Extraído de http://books.google.com.br/books?hl=en&lr=&id=Gzd_I2AFswwC&oi=fnd&pg=PR5&dq=jesus+islamism&ots=l6BG-CsPV6&sig=MJW3PxXzLJI7xSnp0LFDYnsOcdY#v=onepage&q=jesus%20islamism&f=false; tradução para fins de divulgação e sem a transliteração dos termos árabes, por Muhammad F.]

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Práticas Sufi: Muraqaba (IV)


Tipos de Muraqaba

Existem muitos tipos de muraqaba que são praticadas em várias escolas Sufi e em diferentes partes do mundo. Segue abaixo uma lista daquelas mais comumente praticadas.

Muraqabas de nível iniciante
1. Muraqaba da luz
São comumente utilizadas para iniciante, ou para a cura de diversas doenças:
- Violeta.
- Índigo.
- Azul.
- Turquesa.
- Verde.
- Amarelo.
- Laranja.
- Rosa.
- Vermelho.
2. Ihsan.
3. Noor (Luz Invisível).
4. Haatif-e-Ghabi (Sons inaudíveis do Cosmos).
5. Nomes de Deus - para adquirir familiaridade com os atributos de Deus.
6. Allah (nome próprio de Deus) - nível final da Muraqaba dos nomes de Deus.

Muraqabas de nível intermediário
1. Maot (موت, morte) - para adquirir familiaridade com a vida após a Morte.
2. Qalb (قلب, coração) - para adquirir familiaridade com o Coração Espiritual.
3. Wahdat (وحده, Unidade) - para adquirir familiaridade com a razão por trás da unidade cósmica, i.e. a Vontade de Deus.
4. La (لا, nada, "coisa nenhuma") - para adquirir familiaridade com a privação material, ou universo não-material.
    Adam (pré-existência) - próximo nível da Muraqba do Nada.
5. Fana (فناء, aniquilação) - Aniquilação do Si-mesmo, para adquirir familiaridade com o alpha e o omega do Universo.

Muraqabas de alto nível
1. Tasawwur-e-Sheikh (تصور الشيخ, mente focada no mestre) - para facilitar a transferência de conhecimento espiritual do mestre para o aprendiz.
2. Tasawwur-e-Rasool (تصور الرسول, mente focada no Profeta) - para facilitar a transferência de Faiz (conhecimento arcano-espiritual) do Profeta para o estudante. O enfoque da mente é feito sobre Muhammad.
3. Tasawwur-e-zat-e-llahi (تصور الذات الإلاهي, mente focada em Deus) - com o auxílio desta muraqaba, o estudante experiencia o Tajalli-e-Zaat de Deus.


Referências

(fim da tradução)

[extraído de http://en.wikipedia.org/w/index.php?title=Muraqaba&oldid=555642232 - tradução de Muhammad F.]

terça-feira, 28 de maio de 2013

Práticas Sufi: Muraqaba (III)


Gnose de Allah



Fanaa

(فناء, extinção, aniquilação) Através de vários estágios (maqamat) e experiências subjetivas (ahwal), o processo de absorção desenvolve-se até a completa aniquilação do Si-mesmo [self] (fanaa), fazendo com que a pessoa torne-se al-insanul-kamil, o "homem perfeito". É a desintegração da concepção estreita de  alguém sobre seu auto-conceito, o si-mesmo social e o intelecto limitado (sentindo-se como uma gota de água consciente de ser parte do Oceano). Este estágio também é chamado de Fanaa fit tawheed ("extinção com a unidade"), e de Fanaa fil Haq ("extinção na realidade").



Sair illalah

(سيرٌ الى الله, jornada rumo a Deus) Aqui, o indivíduo começa sua jornada espiritual na direção da realidade última do universo, i. e. Deus. Também chamado de Safr-e-Urooji.



Fana fillah

(فناء في الله, extinção do si-mesmo em Deus) Uma das importantes fases da experiência mística pela qual o viajante atinge a graça de Deus no caminho místico é o estágio de fana fi Alah, "extinção de si-mesmo em Deus". Esse é o estágio onda a pessoa extingue-se na vontade de Deus. É importante ressaltar que não se trata de incarnação ou união. Muito Sufis, enquanto passam por essa experiência, tem preferido viver em profundíssimo estado de silêncio, o qual transcende todas as formas e sons, e desfrutam de sua união com o amado.



- O mais alto estado de fanaa é alcançado quando inclusive a consciência de ter atingido o fanaa desaparece. É isso o que os Sufis chamam "morte da morte" (fana al-fana). O místico está agora envolvido na contemplação e na divina essência. 


- Uma vez que se trata de um estado de completa aniquilação do Si-mesmo carnal, absorção e intoxicação em Deus, o peregrino torna-se incapaz de participar nos assuntos mundanos, sendo levado a passar por outro estado conhecido como Fana al-fana (esquecimento da aniquilação), como um tipo de esquecimento da inconsciência. Se dois negativos formam um positivo, o peregrino neste estágio reconquista sua individualidade da forma que ela era quando começou sua jornada. A única diferença é de que, no início, ele era auto-consciente, mas, após repousar no Ser Divino, ele adquire esse tipo de individualidade que é a consciência de Deus ou absorção em Deus. Este estado é chamado de Baqa-bi-Allah - viver ou subsistir em Deus.

Sair min Allah
(سير من الله, jornada a partir de Deus) Aqui, a pessoa retorna à existência. Este estado também é chamado de Safr-e-Nuzooli. Ninguém pode unir-se efetivamente aO Supremo Criador; acreditar nisso é shirk [associar seres a Allah].O que efetivamente ocorre é que a consciência dessa pessoa sobre Allah aumenta tanto que ele esquece dele mesmo, ficando totalmente perdido na Sua magnificência.

Baqaa billah
(بقاء بالل, vida eterna em união com o Deus Criador) Este é o estado no qual o humano retorna à sua existência e Deus indica-o para guiar os demais. Este é o estado no qual o indivíduo é parte do mundo, mas de modo desinteressado de sua posição ou recompensas possíveis dele. Esse doutrina é abordada em Sahih Bukhari , que relata que Deus disse [trata-se de um hadith qudsi]:

As coisas mais amáveis pelas quais Meu escravo aproxima-se de Mim é o que lhe prescrevi; e Meus escravos continuam aproximando-se de Mim através da performance do Nawafil (rezando ou realizando feitos juntamente e além dos obrigatórios), até que Eu o ame; então Eu me torno a audição pela qual ele ouve, a visão pela qual ele vê, e sua mão com a qual ele segura, e as pernas com as quais anda.
Existe outro verso no Alcorão que é utilizado para explicar este conceito:
Estamos mais próximo dele do que sua jugular. (50:16)
Quando os Sufis saem do estado de Fana fillah e entram em Baqa billah, muitos deles produzem trabalhos de glória insuperável, especialmente nos campos da filosofia, literatura e música. Estes trabalhos coroaram a cultura de todo o mundo islâmico e inspiraram gerações de Sufis e não-Sufis. Como o grande poeta persa sufi, Hafez de Shiraz, o qual é lembrado como "a língua do invisível", disse séculos atrás: "Aquele cujo coração está vivo com o amor, nunca morre." Allah diz sobre essas pessoas no Alcorão "Não é, acaso, certo que os diletos de Deus jamais serão presas do temor, nem se atribularão?" [10:62 - extraído de http://www.islamreligion.com/pt/articles/406/viewall/]

(continua amanhã, Insh'Allah)

[extraído de http://en.wikipedia.org/w/index.php?title=Muraqaba&oldid=555642232 - tradução de Muhammad F.]

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Práticas Sufi: Muraqaba (II)


Gnose do universo

Kashaf' / Ilhaam
Kashaf', ou Ilhaam (كشف/الهام, desvelar do conhecimento arcano), é o estágio pelo qual o sujeito começa a acessar a informação que maior parte das pessoas não estão aptas a observar. No começo, essa condição ocorrerá repentinamente sem controle. Com a prática, a mente torna-se tão energizada que ela pode apreender esse conhecimento pela vontade.

Shahood
(شهود, evidência) Quando o indivíduo consegue acessar quaisquer informações sobre qualquer evento / pessoa à sua vontade, tal condição é chamada Shahood. Tal estágio é amplamente categorizado de acordo com a ativação dos sentidos:
1. ver coisas em qualquer lugar do universo;
2. ouvir coisas em qualquer lugar do universo;
3. sentir o cheiro de qualquer coisa do universo;
4. tocar coisas em qualquer coisa do universo.

Fatah
(فتح, abertura, vitória) O ápice do Shahood chama-se Fatah. Neste estágio, não há mais a necessidade de fechar os olhos para meditar. Aqui a pessoa está livre tanto do tempo quanto do espaço. Ela pode ver / ouvir / degustar / tocar qualquer coisa que esteja presente em qualquer lugar do tempo e espaço.


(continua amanhã, Insh'Allah)

[extraído de http://en.wikipedia.org/w/index.php?title=Muraqaba&oldid=555642232 - tradução de Muhammad F.]