quarta-feira, 15 de maio de 2013

Debate sobre o véu


Que a paz, as bençãos e a misericórdia de Deus estejam convosco.

Irmãos, em uma postagem anterior, disse que não caberia a mim afirmar qual os deveres e obrigações da mulher. Continuo com essa postura. Assim, encontrei esse vídeo muito interessante que colocam duas mulheres com perspectivas diferentes sobre o uso do niqab, discutindo a questão da proibição francesa sob o traje religioso opcional da mulher muçulmana. O site de Hebah Ahmed, a irmã muçulmana, é http://muslimmatters.org/ e o site da outra irmã, Mona Elthaway, é http://www.monaeltahawy.com/. Espero que a discussão delas forneça bons elementos para vossa e para minha reflexão.


terça-feira, 14 de maio de 2013

Tao e João


No começo era o Tao. Tudo provém dele, tudo retorna a ele... Todo existente no Universo é uma expressão do Tao... do Tao nascem todas as coisas, e ele as nutre e as mantém. - Tao Te Ching, por volta de 6 séculos antes da Era Comum.

No começo era o Verbo e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no começo com Deus. Todas as coisas foram feitas através dele, e sem ele nada do que existe viria a ser. - O Evangelho de São João, primeiro século da Era Comum

[ extraído de http://sectuntomyself.blogspot.com.br/2011/05/spirituality-universality.html - Tradução de Muhammad F.]

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Orgulho de ser fundamentalista


Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

Seguir uma religião em seus fundamentos é o dever de todo religioso. Seguir a base de sua religião, aquilo que realmente faz dela uma arma contra a ignorância e a maldade, é um dever daquele que diz procurar a Palavra de Deus. Assim, gostaria de listar alguns pontos que me vem à mente quando percebo que sou um fundamentalista. Sim, sou um fundamentalista islâmico com o maior orgulho de sê-lo. Tenho certeza que muitos não concordarão que esse é o fundamento da minha religião, da minha fé, mas tenho certeza que são - ou não seguiria o Islam em meu coração.

Alguns pontos que destaco do meu fundamentalismo islâmico:

  • Um extremo respeito pelas diferentes manifestações humanas em sua pluralidade;
  • A obrigatoriedade de pensar no próximo como alguém dotado de razão e de conhecimentos que não possuo;
  • O pacto que faço comigo mesmo de não irritar ou agredir as pessoas;
  • O dever de sempre ter paciência e misericórdia com meus irmãos;
  • Uma compaixão que deve ser trabalhada cotidianamente;
  • Uma abertura para a razão e seus usos;
  • A consideração de que todos, por mais que discordem, possuem seu quinhão de razão;
  • A obrigação pela procura do conhecimento em suas mais diferentes formas e apresentações;
  • O pressuposto de que posso estar errado, uma vez que não passo de um ignorante;
  • A inclinação para perdoar as pessoas que me cometem algum malefício e de ajudar as pessoas sem se importar com o que fizeram, fazem ou que virão a fazer contanto que não prejudiquem alguém;
  • A defesa da liberdade de consciência alheia;
  • A recomendação pelo abrandamento de todas as penas, uma vez que as pessoas erram por ignorância;
  • A aceitação das pessoas que discordam necessariamente de mim.
Gostaria, sinceramente, que todos fossem extremamente fundamentalistas desse modo. O Islam veio libertar as pessoas de todos os modos de opressão. É uma pena que sob a bandeira do Islam, muitas formas de opressão tenham se manifestado. Acredito que o Islam, na verdade, indica que um mundo ideal na vida terrestre é possível: um mundo onde ateus, cristãos, judeus, hindus; negros, brancos, amarelos, pardos, vermelhos; árabes, asiáticos, africanos, europeus, americanos; heterossexuais, bissexuais, homossexuais, possam todos viver em Paz, contribuindo para o desenvolvimento mútuo em prol da união.

... gostaria de terminar com uma reflexão que fiz observando uma pichação, que dizia: "Todo poder para o povo". Não, todo o poder não deve ser do povo, nem da elite, nem de nenhum humano. Todo poder é de Deus: só Ele é digno do poder (numa visão ateísta, o poder não deve ser de ninguém). Enquanto os Homens distribuírem o poder uns para os outros, disputando e discutindo, teremos injustiças e incoerências. Somente quando abdicarmos do poder e percebermos que somos todos irmãos, sem ninguém superior a ninguém, independentemente de sua concepção de vida, que teremos o fim do poder terrestre e a vinda do Reino de Deus.

domingo, 12 de maio de 2013

Vá!


Existe um trabalho que está além do conhecimento; obtenha-o, vá!
Não trabalhe com as gemas, seja a mina; vá!
O coração é uma morada temporária; deixe-a e venha!
A alma é a morada final; descubra isso e vá!

[Extraído de Chisthi Poetry, disponível em http://www.chishti.ru/chishti_poetry.htm - tradução de Muhammad F.]

sábado, 11 de maio de 2013

Notas sobre tradução



Que a paz, as bençãos e misericórdia de Deus estejam convosco. Hoje, peço licença para expor um pouco de minha imensa ignorância e escrever algumas considerações sobre um ato admirável, exemplar, que tenho como ação de excelência: a tradução.

O ofício de traduzir deve ser ancestral como o próprio homem. Quando sujeitos de culturas diferentes se encontram e são mediadas, de algum modo, por um sujeito falante de ambas as línguas, temos o ato de tradução ocorrendo. A nobreza e o valor desse sujeito, procurando manter-se fidedigno ao conteúdo de uma mensagem, a preocupação de como tal mensagem será compreendida pelo interlocutor, fornecem parte da vertigem do ato de traduzir. É difícil e é arriscado, é como Umberto Eco afirma, em Quase a mesma coisa, uma negociação que se faz com o texto e entre os consumidores desse texto, afinal.

Negociar sentidos atribuídos aos objetos da linguagem. Lidar com homens e ideias. Lidar com a compreensão e atribuição de valor. Após o advento de uma cultura escrita massificada – podemos dizer que o livro é, talvez, um dos primeiros objetos industrializados (cf. Chartier em A aventura do livro) -, o ato de traduzir modificou-se: dessa vez, a tradução materializava-se em papel e tinta. Assim, não se traduzia qualquer coisa, mas uma cultura de tradução difundia-se. Na verdade, antes da imprensa havia essa difusão de uma cultura de tradução, com línguas sendo priorizadas como línguas de tradução (durante algum tempo e localmente na Europa, o latim; mais amplamente por um tempo maior que o latim, o árabe; mais recentemente o inglês). Temos então línguas de acesso, como o alemão, o persa, o russo, e línguas de tradução, como o francês, espanhol e árabe. Diferencio uma da outra por conta de que algumas línguas parecem servir melhor para que uma tradução seja difundida do que outras, sendo isso uma questão mais cultural do que técnica, enfim.

Esse é o caso contemporâneo do inglês: se a obra não foi escrita nessa língua, provavelmente será traduzida para ela. É o caso, por exemplo, da seerat de Ibn Ishaq, The life of Muhammad: a primeira tradução para uma língua ocidental foi para o inglês; praticamente, só temos acesso a esse livro nessa língua (me corrijam se estiver errado, por favor). É o caso das traduções que faço nesse site: meu conhecimento de árabe é pífio para que possa arriscar uma tradução direta. Arrisco, assim, a traduzir os textos que foram traduzidos – realizando as assim chamadas traduções de segunda mão.

Gostaria, nesse momento, de retomar algo que falei no começo do texto: que a tradução é um ato de excelência. Permitir que membros de culturas diversas entrem em contato, favorecer tal contato, parece ser um dever, uma obrigação das pessoas que procuram algum esclarecimento sobre o mundo. Abandonar um tanto do centrismo que somos envolvidos em nossos pensamentos parece ser um atributo do tradutor (ou que deveria ser), relativizando a possibilidade de acesso à Realidade como algo possível por parte de todos... As línguas formam identidades e nações (penso em Benedict Anderson e seu Comunidades imaginadas), mas possibilita também o contato entre estas. Enfim, gostaria de terminar essas digressões, que espero continuar caso fique satisfeito com meu texto, com uma citação do Alcorão Sagrado:


Ó humanos, em verdade, Nós vos criamos de macho e fêmea e vos dividimos em povos e tribos, para reconhecerdes uns aos outros. Sabei que o mais honrado, dentre vós, ante Deus, é o mais temente. Sabei que Deus é Sapientíssimo e está bem inteirado. (Alcorão, 49:13; extraído de http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/alcorao.pdf - tradução do professor Samir El Hayek)

É ordem de Deus conhecermos uns aos outros; assim, encerro por aqui esse texto indicando que existe, através da sabedoria tradicional, excelente indicativo para que façamos esse ato de conhecimento mútuo. Que a Paz esteja conosco.

[Em breve, e se Deus permitir, tratarei sobre a questão da "tradução" do Alcorão.]

P.S.: gostaria de indicar o excelente blog de Denise Bottman, http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/.

Bibliografia:
ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
BURKE, Peter e HSIA, R. Po-chia (orgs.). A tradução cultural nos primórdios da Europa Moderna. São Paulo: Editora UNESP, 2009.
CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador; conversações com Jean Lebrun. São Paulo: UNESP/IMESP, 1999.
ECO, Umberto. Quase a mesma coisa: experiências de tradução. São Paulo: Record, 2007.