domingo, 5 de maio de 2013

Dune e uma arma




Que a paz, as bençãos e misericórdia de Deus estejam conosco e convosco (bem como com Frank Herbert).


Recentemente, pude ter em mãos um exemplar do livro Dune, de Frank Herbert. Em inglês, possuía algo que não tinha na edição da Nova Fronteira que li quando adolescente: um apêndice intitulado The religion of Dune (disponível na íntegra em http://www.freebook4u.org/ScienceFiction/Dune/16677.html). Rapidamente, terminei a leitura desse apêndice enquanto aguardava a contação de histórias para crianças na Livraria Cultura...

Só gostaria de traduzir uma conclusão do Conselho de Tradutores Ecumênicos. Fora de contexto, a ideia é excelente... Tudo bem que, como o próprio texto demonstra, a religião e suas variações não deixaram de ser um problema por conta dessa conclusão, mas parece ser bem prolífica para posturas em nosso mundo:

Estamos aqui para remover uma arma primária das mãos das religiões em contenda. Essa arma - clamar a posse de uma e única revelação. (extraído de http://www.freebook4u.org/ScienceFiction/Dune/16677.html - tradução de Muhammad F.)

O que acham disso? Tenho essencial interesse em saber o que os ateus achariam dessa frase. Talvez ela proponha, de modo subliminar, uma reforma essencial aos diferentes pensamentos religiosos... Também não posso esconder um sorriso por ser muçulmano ao pensar nessa questão e na Viagem Noturna (relatada, de modo sintético e muito descritivo, em http://www.islamreligion.com/pt/articles/1511/viewall/) do Profeta Muhammad (que a misericórdia e as bençãos de Deus estejam com ele).

Quanto à curiosidade em relação aos ateus, deixo claro que me dirijo aos ateus que utilizam a razão para refletirem sobre a Realidade, não aqueles que se apressam em condenar sistemas de pensamento estruturantes de civilizações em nome de uma pretensão de esclarecimento. Obrigado e Paz!

sábado, 4 de maio de 2013

O Logos...





O Logos está cavando um canal para que a água alcance a próxima geração. Durante cada geração, existe um que traz a palavra de Deus; ainda são de auxílio as falas daqueles que vieram antes de nós.

(Jalaluddin Rumi - Mathnawi III, 2537-2538; extraído de The pocket Rumi. Boston & London: Shambala, 2008.)

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Em defesa do xiismo


Que a paz, as benção e a misericórdia de Deus estejam convosco e conosco, do passado até o Dia do Juízo Final.

Meus caros, o presente post de certo modo é um desabafo de algo que me irrita muito: o uso indiscriminado do termo xiita para acusar todo pensamento intolerante ou fanático. Algumas reflexões muito sérias ainda estão por ser feitas; o que proponho é tão somente acrescentar um grão de areia a uma praia, mas espero que possa, através dessa minúscula e pretensiosa exposição, clarear algumas questões...

Após a Revolução Iraniana de 1979, o movimento xiita tomou maior dimensão em nosso Ocidente. As leituras que a mídia realizou foram no sentido de indicar a existência de um movimento, mas ao mesmo tempo confundir suas manifestações sob o governo iraniano como manifestações do xiismo em si. Ora, um sistema de pensamento é uma coisa muito distinta da generalidade dos seus frutos.

Através de uma séria de problemáticas às quais o povo iraniano vivia subjugado - como as influências cultural e político-militar de outras nações -, o xiismo pôde auxiliar no desenvolvimento de um sentimento de nação, território e cultura que até então pouco existiam. O povo, juntamente com o líder da revolução, o Ayatollah Ruhollah Khomeini, demandaram uma retomada de valores religiosos. Obviamente, a leitura do Alcorão e dos Hadiths (sejam do Último Profeta, que a paz esteja com ele, ou dos Imams, que Deus esteja satisfeito com eles) receberam a forte influência do contexto no qual o Irã se encontrava.

A propaganda contra um modo de vida Ocidental, a retomada dos valores tradicionais em detrimento dos frutos da modernidade, a ação militar, a crítica às instituições, foram todos fatores que passaram a ter maior importância. Parece ser uma das lições da História a de que quando um povo quer se fortalecer, seja pela ação de suas elites ou de seus grupos populares, encontra um inimigo externo.

Desse modo, o xiismo passou a ser associado a uma série de comportamentos irracionais, totalitários mesmo, que arriscaram levar ao desconhecimento de sua verdadeira natureza por parte dos Ocidentais, sendo que trata-se, contemporaneamente mais do que nunca, de uma tentativa de reação a esse "inimigo externo".

A algumas décadas antes do presente contexto iraniano, com um "nuclearista" como Mahmoud Ahmadinejad, um francês chamado Henry Corbin pôde estudar e esclarecer muitos pontos do que é o xiismo, a que se propõe e sua contribuição essencial ao pensamento universal. Henry Corbin detalha todo um sistema místico-filosófico de extrema densidade e com uma tradição intelectual de causar inveja aos nossos filósofos Ocidentais. Em seu Histoire de la philosophie islamique, o autor nos mostra algo que, quando li primeiramente, me deixou extremamente surpreso: se temos no islamismo uma tradição filosófica e reflexiva, devemos aos xiitas tal tradição. O que os grupos sunitas pareciam se esforçar em fazer, ao menos durante séculos, era estabelecer o domínio político, organizar um Estado islâmico (apesar de ter minha ressalvas quanto a essa expressão) e legislar sobre os diferentes aspectos da vida prática - daí as inúmeras  proclamações muitas vezes anedóticas e que se propagam ainda hoje. Já os grupos xiistas, isolados de algum modo das disputas terrenas, entregavam-se à reflexão e ao aprofundamento da experiência religiosa. Alguns anos mais tarde, o envolvimento com questões "terrenas" seria inevitável para a crescente comunidade xiita - para maiores informações, consultar o livro basilar de Albert Hourani, Uma história dos povos árabes. Entretanto, não é esse aspecto que gostaria de destacar.

De todo modo, como escapa à consciência média das pessoas, estudiosos ou não, o xiismo tem muito pouco de fanatismo irrefletido em sua origem e desenvolvimento do que o acusam. Não sou xiita, mas também não olho para o pensamento xiita de modo a tomá-lo como inferior, de segunda categoria ou pertencente a um grupo mal instruído de indivíduos iludidos e bárbaros. Muito pelo contrário: se tomarmos o xiismo e, fantasiando, tentarmos colocá-lo num bloco monolítico, termos um sólido sistema intelectual com algumas arestas. O barbarismo do qual o acusam não é resultado meramente do xiismo, mas também uma série de condicionamentos e determinações materiais e históricas em relação.

... enfim, tudo isso para dizer que, quando alguém acusa tal pessoa por ser xiita (por exemplo, um "fã xiita" ou um "torcedor xiita"), associam, primeiramente, tal adjetivo, xiita, ao radicalismo e ao fanatismo. Dou graças a Deus de possuir entendimento mínimo para quando me chamam ou chamam alguém de xiita compreender que pode se tratar de um elogio. Sugiro que tal reflexão seja feita, principalmente pelas pessoas que lidam com a comunicação em nosso Ocidente, ou por aqueles que querem ser reconhecidos como pensadores ou filósofos (seja pelo diploma e/ ou pela experiência). Chamar alguém de xiita e querer dizer que isso é um pensamento atrasado ou algo depreciativo indica o quanto o acusador não possui de esclarecimento do que se trata o próprio xiismo.

Sugiro para todos que quiserem ter maior conhecimento do que é o xiismo que procurem uma autoridade no assunto e que leiam um livro extremamente acessível (uma vez que encontra-se na íntegra na internet) antes de continuarem usando tal adjetivo como um pretenso xingamento ou ofensa: trata-se da obra de Mohammad Hussein al-Tabatabaí, O Xiismo no Islam, disponível em http://www.arresala.org.br/arquivos/File/pdf-livros/OXiismonoIslam.pdf.

Definitivamente, é uma pena que nossos meios de comunicação continuem demonizando um sistema de pensamento tão complexo. Não me parece muito diferente dos bárbaros que acusam os outros de serem; quando afirmam que o Ocidente é um antro de hedonismo, erotismo, falta de valores e de moral, exageram do mesmo modo. Não cometamos os mesmos erros daqueles que pretendemos julgar, irmãos, tampouco julguemos de maneira definitiva, pois não nos cabe isso... Procuremos no xiismo um potencial exemplo para a condução da vida humana com dignidade. Procurar aspectos negativos e encontrá-los é possível em toda experiência humana, afinal...

[Não tratei de passagem da questão da iconografia xiita e de suas relações com a iconografia cristã, tampouco descrevi seus rituais ou critiquei essa ou aquela prática; peço a compreensão dos leitores e a graça de Allah para que um dia possa escrever sobre esses assuntos tão complexos.]

Bibliografia:
AL-TABATABAÍ, Allamah Ayyatullah al-Odhmah Assayed Mohammad Hussein. O xiismo no islam. São Paulo: Edições Arresala, 2008.

ARMSTRONG, Karen. Em nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

CORBIN, Henry. Histoire de la philosophie islamique. Paris: Gallimard, 2006.`

quinta-feira, 2 de maio de 2013

TED Talks: A carta para a compaixão




Que a paz, as bençãos e a misericórdia de Deus estejam convosco.

É sempre um prazer poder ouvir a escritora Karen Armstrong. Dotada de um conhecimento profundo da religião, defensora da regra dourada presente em todas as religiões, propõe uma Carta para a Compaixão (Charter for Compassionhttp://charterforcompassion.org/). Perto dela, melhor conter minhas palavras e indicá-la:

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Uma única religião?


Que a paz, as bençãos e a misericórdia de Deus estejam convosco e conosco.

Não existem etnias superiores umas às outras. Todas possuem características particulares e semelhanças extremas.

Não existem línguas superiores umas às outras. Todas possuem potenciais e elementos criativos e comunicativos essenciais para seus usuários-possuidores.

Por que o mesmo não é válido para a religião? Por que o totalitarismo invade o pensamento religioso com tamanha facilidade? É lamentável que a racionalidade não seja uma faculdade que tenha sido generalizada ao observarmos a pluralidade religiosa de nosso mundo. Essa mesma pluralidade religiosa indica algo maravilhoso, indica que Deus nos fornece milhares de caminhos para chegarmos a Ele, caminhos esses que podem ser trilhados do modo que for - mas são sempre caminhos particulares. Indica mais ainda: que no Dia do Juízo, quem estará julgando é Deus. Não o Homem, cheio de apreensões provisórias e pré-noções. Apressem-se, irmãos e irmãs, em praticar as boas obras. O que importa é o que fizemos uns para os outros como irmãos e irmãs na fé e na humanidade antes que nossos dias tenham término. O que se passa em nossos corações importa para Deus. Uma vez que ele é o Clemente, o Misericordioso, nossas ignorâncias e falhas de concepção pouco importarão; Deus não precisa do Homem. O Homem precisa de Deus, mas esse se manifesta, como já disse, (também) nos corações dos Homens.

O sonho de uma única religião cabe aos inimigos da humanidade plural e multifacetada, da única humanidade que conhecemos e na qual existimos. Terminar com as diferenças parece nunca ter sido a Vontade de Deus... Se fosse, qual seria o obstáculo que impediria Sua Vontade? Os sonhos de uma única religião planetária pertencem ao totalitário e absolutista, não àquele que medita sobre a Vontade do Criador.